Flexão, vozes do verbo e correlação de tempos e modos
Do zero
O verbo é a palavra que mais muda de roupa. Numa só forma, como “analisaremos”, ele conta três coisas:
- Quem: a pessoa e o número (nós).
- Quando: o tempo (futuro).
- Com que certeza: o modo. O indicativo fala de fatos (“o prazo acabou”); o subjuntivo, de hipóteses, desejos e dúvidas (“talvez o prazo acabe”, “se o prazo acabasse”); o imperativo, de ordens e pedidos (“entregue o relatório”).
Os nomes também mudam, só que menos: substantivos e adjetivos variam em gênero e número (“o relatório técnico”, “as normas técnicas”). Isso é a flexão nominal.
A voz do verbo diz quem é o centro da frase. Na ativa, o sujeito faz: “A comissão aprovou o relatório”. Na passiva, o sujeito sofre: “O relatório foi aprovado pela comissão”. Na reflexiva, faz e sofre ao mesmo tempo: “O técnico feriu-se”.
E a correlação de tempos e modos é a combinação certa entre dois verbos do mesmo período, como peças que precisam encaixar: “Se eu tivesse tempo, estudaria” encaixa; “Se eu tivesse tempo, estudarei” não encaixa.
Frase para guardar: indicativo é certeza, subjuntivo é hipótese; na passiva o objeto vira sujeito; “se tivesse” pede “-ria”, “se tiver” pede “-rá”.
Em 1 minuto
- Passiva analítica: verbo ser + particípio, no mesmo tempo da ativa. “A comissão analisará os contratos” → “Os contratos serão analisados pela comissão”.
- Passiva sintética: verbo transitivo direto + se. O verbo concorda com o sujeito: “Analisaram-se os contratos”, como “os contratos foram analisados”.
- Se com verbo que não é transitivo direto é índice de indeterminação do sujeito, e o verbo fica no singular: “Precisa-se de técnicos”.
- Correlações-chave: “se + imperfeito do subjuntivo” combina com o futuro do pretérito (se viesse, sairia); “se ou quando + futuro do subjuntivo” combina com o futuro do presente (quando vier, sairei); “quero que” pede o presente do subjuntivo (quero que venha); “queria que”, o imperfeito (queria que viesse).
- Verbos que derrubam candidatos: ver e vir no futuro do subjuntivo (quando eu vir; quando ele vier), derivados de ter, pôr, vir e ver (mantiver, propuser, interveio, previr).
Exemplo concreto: uma notícia em três vozes e quatro tempos
“A comissão aprova o relatório.” Agora mude a voz, mantendo o tempo:
| Ativa | Passiva analítica | Passiva sintética |
|---|---|---|
| A comissão aprova o relatório. | O relatório é aprovado pela comissão. | Aprova-se o relatório. |
| A comissão aprovou os relatórios. | Os relatórios foram aprovados pela comissão. | Aprovaram-se os relatórios. |
| A comissão aprovará os relatórios. | Os relatórios serão aprovados pela comissão. | Aprovar-se-ão os relatórios. |
| A comissão estava aprovando os relatórios. | Os relatórios estavam sendo aprovados pela comissão. | — |
Na passiva analítica, o verbo ser fica no tempo do verbo da ativa, e o particípio concorda com o novo sujeito (os relatórios aprovados). Para conferir uma transposição, faça o caminho de volta: a frase passiva precisa contar exatamente o mesmo fato, no mesmo tempo.
Comparação: a correlação de tempos e modos
| Primeira parte | Segunda parte | Exemplo |
|---|---|---|
| Presente do indicativo | Presente do subjuntivo | Espero que a equipe termine hoje. |
| Pretérito do indicativo | Imperfeito do subjuntivo | Esperava que a equipe terminasse hoje. |
| Se ou quando + futuro do subjuntivo | Futuro do presente | Se a equipe terminar, o relatório sairá amanhã. |
| Se + imperfeito do subjuntivo | Futuro do pretérito | Se a equipe terminasse, o relatório sairia amanhã. |
| Se + mais-que-perfeito do subjuntivo | Futuro do pretérito composto | Se a equipe tivesse terminado, o relatório teria saído ontem. |
| Verbo | Forma que cai | Errado comum |
|---|---|---|
| ver (futuro do subjuntivo) | Quando eu vir o relatório… | “quando eu ver” |
| vir (futuro do subjuntivo) | Quando ele vier à sede… | “quando ele vir à sede” |
| manter, deter, obter (como ter) | Se ele mantiver, detiver, obtiver | “se ele manter” |
| propor, compor, supor (como pôr) | Se a equipe propuser… | “se a equipe propor” |
| intervir (como vir) | O diretor interveio. | “o diretor interviu” |
| prever (como ver) | Se o plano previr riscos… | “se o plano prever” |
| requerer | Eu requeiro; ele requereu. | “eu requero”; “ele requis” |
| reaver (só onde haver tem “v”) | Ele reouve os bens. | “ele reaveu”; “eu reavejo” |
Flexão nominal que mais cai: adjetivo composto só flexiona o último elemento (relatórios técnico-científicos); “meio” como advérbio não varia (ficou meio preocupada), mas como numeral varia (meia hora); “menos” nunca varia (menos pessoas, nunca “menas”); plural de substantivo em -ão tem três formas (cidadãos, pães, ações).
Como a FCC cobra
“Transpondo-se para a voz passiva o segmento…, a forma verbal resultante será…” e a correção de formas verbais de verbos irregulares (vir, ver, pôr, ter e derivados), além da correlação “se + subjuntivo”.
- Transposição entre ativa e passiva, mantendo o tempo.
- Passiva sintética × índice de indeterminação do sujeito (concordância do verbo com “se”).
- Correlação de tempos e modos numa reescrita.
- Formas do futuro do subjuntivo e dos verbos derivados.
Pegadinhas
- “‘Precisam-se de técnicos’ está correto, porque ‘técnicos’ está no plural.” Falso: com preposição, “técnicos” não é sujeito; o certo é “precisa-se de técnicos”.
- “‘Vende-se imóveis’ está correto.” Falso: “imóveis” é o sujeito da passiva sintética; o certo é “vendem-se imóveis”.
- “Na passiva, ‘A comissão analisará os contratos’ vira ‘os contratos foram analisados’.” Falso: o tempo tem de ser mantido: “serão analisados”.
- “‘Quando ele vir à sede’ está correto.” Falso: do verbo vir, o futuro do subjuntivo é “vier”; “vir” é do verbo ver.
- “‘Se eu tivesse tempo, estudarei’ obedece à correlação.” Falso: imperfeito do subjuntivo pede futuro do pretérito: “estudaria”.
Explique com suas palavras
Explique a um colega por que se escreve “Analisaram-se os contratos” e “Precisa-se de técnicos”, com o verbo no plural num caso e no singular no outro.
- Escreva sem olhar a lição, com frases curtas e um exemplo seu.
- Onde travar ou precisar de jargão, há uma lacuna: releia só essa parte.
- Compare com a explicação-modelo e reescreva o que faltou.
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Comparar com uma explicação-modelo
Em “Analisaram-se os contratos”, a frase equivale a “Os contratos foram analisados”. Quem sofre a ação são os contratos, e eles são o sujeito. Como o sujeito está no plural, o verbo vai para o plural: é a voz passiva sintética, que só existe com verbos que pedem objeto sem preposição, como analisar algo.
Em “Precisa-se de técnicos”, o verbo é “precisar de”, que pede preposição. Não dá para dizer “técnicos são precisados”, então “de técnicos” não é sujeito; o sujeito fica indeterminado, ninguém sabe quem precisa. Sem sujeito para concordar, o verbo fica no singular.
Teste-se
Língua Portuguesa · Flexão e vozes do verbo · Inédita, estilo FCC
Questão 1 de 3
Transpondo-se para a voz passiva a frase “A comissão analisará os contratos até sexta-feira”, a forma verbal resultante será
A–E escolhem, Enter confirma. Botão direito ou Shift + letra risca.
Toque longo numa alternativa para riscá-la.
Língua Portuguesa · Flexão e vozes do verbo · Inédita, estilo FCC
Questão 2 de 3
Preenchem corretamente as lacunas da frase “Se o relatório ______ pronto, o conselho o ______ na sessão de amanhã”, respeitando a correlação entre tempos e modos verbais:
A–E escolhem, Enter confirma. Botão direito ou Shift + letra risca.
Toque longo numa alternativa para riscá-la.
Língua Portuguesa · Flexão e vozes do verbo · Inédita, estilo FCC
Questão 3 de 3
A forma verbal está empregada em conformidade com a norma-padrão em:
A–E escolhem, Enter confirma. Botão direito ou Shift + letra risca.
Toque longo numa alternativa para riscá-la.
Mais duas questões deste tópico estão em Questões.
Flashcards gerados
| Frente | Verso |
|---|---|
| Os três modos verbais | Indicativo (fato, certeza), subjuntivo (hipótese, desejo, dúvida) e imperativo (ordem, pedido). Exemplo: “O prazo acabou”; “talvez o prazo acabe”; “entregue o relatório”. |
| Voz reflexiva | O sujeito pratica e sofre a ação ao mesmo tempo, com pronome oblíquo da mesma pessoa. Exemplo: “O técnico feriu-se com o cabo.” |
| Derivados de ter, pôr, vir e ver | Conjugam-se como o verbo de origem. Exemplo: Mantiver (ter), propuser (pôr), interveio (vir), previr (ver). |
| “Quero que” × “queria que” | Presente do indicativo pede presente do subjuntivo (quero que venha); pretérito pede imperfeito do subjuntivo (queria que viesse). |
| “Meio” varia? | Como advérbio (= um pouco), não varia; como numeral (= metade), concorda com o nome. Exemplo: “Ficou meio cansada”; “esperou meia hora”. |
Ligação com o estudo de caso
Na discursiva, a voz passiva ajuda a manter a impessoalidade de um texto técnico (“recomenda-se a adoção de autenticação multifator”), mas cuidado com a concordância: “recomendam-se as seguintes medidas”. Nas propostas com condição, mantenha a correlação: “caso o órgão adote a medida, o risco diminuirá”, ou “se o órgão adotasse a medida, o risco diminuiria”.
Fontes da lição
- Edital nº 01/2026, Anexo II, Língua Portuguesa (fontes/edital-01-2026.txt).
- Evanildo Bechara, Moderna gramática portuguesa (flexão verbal, vozes do verbo e verbos irregulares).
- Celso Cunha e Lindley Cintra, Nova gramática do português contemporâneo (emprego dos tempos e modos).
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